Vagando por essas bandas largas, de novo topo com outra figura de retórica apresentada por meio do vídeo, além da aliteração aí embaixo: a sinestesia.
A sinestesia é a "associação de duas ou mais sensações pertencentes a registros sensoriais diferentes. A utilização de tal figura de retórica permite a transposição de sensações, ou seja, a atribuição de determinadas impressões sensoriais a um sentido que não lhes corresponde. Por exemplo, na expressão 'aquela cor é gritante', a percepção visual (cor) como que é ouvida, processo que acentua a intensidade da mesma." [extraído do site excelente E-dicionário de Termos Literários: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/S/sinestesia.htm ].
Então, encontrei por aí o "Terri Timely": é uma dupla de diretores (Ian Kibbey e Corey Creasey) que fazem curtas, comerciais, etc. No vídeo deles, Synesthesya apresentam com muita criatividade e cores esse conceito. Vejam só, menos de 5 minutos:
Não é muito criativo? Os irmãos tentam ouvir (ao tentar conectar o plug dos fones nos alimentos) o que é para ser degustado com o paladar. Mistura-se, assim, a audição e o paladar. O aparelho de som, que é para ser ouvido, emite objetos variados, cena para ser vista. Há o cruzamento da visão com a audição. Chique no úrtimo!
Bom, e como não poderia faltar, a literatura, não é? Uma sinestesia do Drummond:
Consolo na praia
Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão.
Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros.
Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho.
Um dos livros listados na bibliografia do processo seletivo do mestrado foi O Demônio da Teoria, de AntoineCompagnon. Este enriquecedor livro teórico trata de temas do mundo do livro, tais como: a literatura (vista como literariedade), o autor (considerado como a intenção), o mundo (como representação), o leitor (entendido como recepção) e o estilo, a história e o valor das obras literárias. Um dos autores cujas idéias são abordadas é justamente o Proust. Vejam o que ele fala sobre o leitor e o livro:
A leitura tem a ver com empatia, projeção, identificação. Ela maltrata obrigatoriamente o livro, adapta-o às preocupações do leitor. O leitor aplica o que ele lê a sua própria situação. Assim, o livro, o escritor, controlam muito pouco o leitor. Cada leitor é, quando lê, o próprio leitor de si mesmo. A obra do escritor é somente uma espécie de instrumento de ótica que ele oferece ao leitor a fim de permitir-lhe discernir aquilo que sem o livro talvez não tivesse visto em si mesmo. O leitor é livre, maior, independente: seu objetivo é menos compreender o livro do que compreender a si mesmo através do livro.
Assim, para Proust, não há leitura inocente, ou transparente: o leitor vai para o texto com suas próprias normas e valores. Tá explicado pq a 5º série se exalta muitas vezes na discussão. .rs
Nosso encontro desse domingo foi muito especial!!!! A casa da Jael é muito acolhedora e ela também. O encontro foi repleto de emoções!!!!: O deslumbramento dos participantes diante dos efeitos emocionais que o livro do mês suscitou em cada um; a riqueza dos comentários especializados do nosso Menalton; a apresentação das "Meninas Mariza e Tina" abordando o tema "erotismo" em Drummond e Hilda Hilst respectivamente, e finalmente a comemoração (com direito a um bolo DELICIOSO e quitutes variadas e deliciosas).
MARIZA, GRACIETTE, JAEL, DIMAS E NATASHA
A LEMBRANCINHA ENTREGUE POR JAEL E CONFECCIONADA POR TINA
A Natasha mandou muitas fotos, estão arquivadas comigo, quem quiser é só pedir que eu envio.
Meus queridos, desejo que o mês vindouro seja repleto de coisas boas em nossas vidas e que continuemos assim ...
Segue o poema do Drummond e o texto da Hilda para "relembrâncias"...
A memória da primeira leitura de Proust é como uma dessas lembranças que ficam voltando a seus personagens – um fraseado de sonata, um bolinho de baunilha, um muro pintado de amarelo num quadro – em ondas, cada qual portadora de novas perspectivas, de novas redes de percepções. É um bom teste para a arte, como para um vinho: a persistência de um afeto, o modo como um detalhe reacende toda uma teia de associações. E é o tema por excelência de Em busca do tempo perdido, seu ciclo de romances em sete volumes, que os brasileiros têm a sorte de poder ler na tradução de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e outros. No final de 2006, a editora Globo começou a relançá-los, com maior aparato editorial (notas, resumos, etc.) e projeto gráfico de Raul Loureiro, muito feliz na escolha das cores de capa e da elegante fonte Walbaum.
Claro, me remeteu à primeira vez que li No caminho de Swann, o volume inicial, traduzido por Quintana. Eu tinha 16 anos, estava sentado à escrivaninha em que deveria fazer a lição de casa, a tarde queimava lá fora e, de repente, não havia mais nada senão as frases de Proust, dotadas da capacidade de nos retratar um mundo específico e ao mesmo tempo nos chamar a atenção para elas mesmas, sem prejuízo da fluência. Muitos estranham quando começam a ler Proust, porque a ação é lenta e a observação, detalhista. Mas, sem saber que o crítico e poeta Paul Valéry já reclamara dos romances que começam com “A duquesa acordou às 10 horas”, fiquei fascinado pela maneira como Proust não apenas descrevia pessoas e objetos, mas sobretudo como fazia isso discutindo – na mesma tonalidade – questões filosóficas, estéticas e sociais. A narrativa e o ensaio jamais tinham estado tão entrelaçados.
Acho que é por esse motivo que ocorre o que se poderia chamar de efeito Proust: depois dele, perdemos a paciência para os romances convencionais, historinhas que apelam aos sentimentos para nos dar alguma mensagem moral. Dizem que Virginia Woolf não conseguia escrever mais nada. Mais do que Joyce, embora este tenha sido eleito pelas vanguardas posteriores, Proust condensa e ultrapassa a arte do romance e ninguém o imita sem cair no ridículo. E ele não levou apenas o tema da música e da pintura para a literatura; emprestou seus recursos também. Durante muito tempo respondi à pergunta “Quais são seus romancistas preferidos?” da seguinte maneira: “São três: Proust, Proust e Proust.” E a cada releitura, como em toda obra de gênio, descobri coisas, revi outras e renovei meu espanto pelo cromatismo de seu estilo, que, como Shakespeare, vai do chulo ao chique em poucas linhas.
Mas o mais importante, vejo melhor agora, foi o usufruto que Proust fez de sua liberdade, da liberdade – tão perigosa para os imaturos – que Henry James diz haver nas páginas em branco da ficção. Proust, fechado num quarto revestido de cortiça, começou a escrever seu ciclo em 1908, aos 37 anos, depois de três eventos marcantes, não por acaso um histórico, o outro estético e o terceiro pessoal: a eclosão do caso Dreyfus dez anos antes, que fizera Proust defender ardorosamente a inocência do capitão judeu e se afastar da alta sociedade parisiense; a descoberta da obra do crítico de arte inglês John Ruskin um ano antes da morte dele em 1900, que levaria Proust a traduzir seus livros; e a morte de sua mãe, em 1905, dois anos depois da de seu pai. Em suas rupturas houve também a descoberta do que se entregar a produzir. Tal liberdade, tal pujança criativa, nasceu, portanto, da reação crítica ao mundo.
Proust tinha visão cética da natureza humana, dos joguetes sociais, das ofertas consoladoras; simultaneamente, eis um indivíduo que se interessava profundamente pela vida, pelos outros, pela natureza, alimentado por vasta curiosidade. Era um crítico com joie de vivre, essa mistura que poucas pessoas compreendem – pessoas para quem, como diz em uma passagem, o prazer parece maligno. Era um quase misantropo, indignado com o mesquinho amor próprio até das pessoas esclarecidas, e um ser gentil e simples. Era um burguês que sabia que a força dos hábitos adormece nossas faculdades: “É em geral com o nosso ser reduzido ao mínimo que nós vivemos.” Foi assim que lê-lo mudou minha vida – por ele ser justamente o oposto da auto-ajuda à qual Alain de Botton tentou convertê-lo em Como Proust pode mudar sua vida, lançando mão de clichês como “a nossa maior chance de felicidade”. Em Proust a felicidade é sempre inconsistente, incompleta, e dela o que teremos são alguns gostos na vida, especialmente gostos que se renovam como o de ler Proust.
Crise financeira, crise económica, crise política, crise religiosa, crise ambiental, crise energética, se não as enumerei a todas, creio ter enunciado as principais. Faltou uma, principalíssima em minha opinião. Refiro-me à crise moral que arrasa o mundo e dela me permitirei dar alguns exemplos. Crise moral é a que está padecendo o governo israelita, doutra maneira não seria possível entender a crueldade do seu procedimento em Gaza, crise moral é a que vem infectando as mentes dos governantes ucranianos e russos condenando, sem remorsos, meio continente a morrer de frio, crise moral é a da União Europeia, incapaz de elaborar e pôr em acção uma política externa coerente e fiel a uns quantos princípios éticos básicos, crise moral é a que sofrem as pessoas que se aproveitaram dos benefícios corruptores de um capitalismo delinquente e agora se queixam de um desastre que deveriam ter previsto. São apenas alguns exemplos. Sei muito bem que falar de moral e moralidade nos tempos que correm é prestar-se à irrisão dos cínicos, dos oportunistas e dos simplesmente espertos. Mas o que disse está dito, certo de que estas palavras algum fundamento hão-de ter. Meta cada um a mão na consciência e diga o que lá encontrou.
Na manhã do próximo dia 28 (9h), o Grupo Dom Quixote estará promovendo o Café Literário com Menalton Braff, que falará sobre seu romance A muralha de Adriano. Estamos convidando a todos que se interessem pelo assunto. A entrada e o cafeznho são de graça.
"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes." (Marilena Chaui)
Duas vezes foi criado o mundo: quando passou do nada para o existente; e quando, alçado a um plano mais sutil, fez-se a palavra. O caos, portanto, não cessou com o aparecimento do universo; mas quando a consciência do homem, nomeando o criado, recriando-o portanto, separou, ordenou, uniu. A palavra, porém, não é o símbolo ou reflexo do que significa, função servil, e sim o seu espírito, o sopro na argila. Uma coisa não existe realmente enquanto não nomeada: então, investe-se da palavra que a ilumina e, logrando identidade, adquire igualmente estabilidade. Porque nenhum gêmeo é igual a outro; só o nome gêmeo é realmente idêntico ao nome gêmeo. Assim, gêmea inumerável de si mesma, a palavra é o que permanece, é o centro, é a invariante, não se contagiando da flutuação que a circunda e salvando o expresso das transformações que acabariam por negá-lo. Evocadora a ponto de um lugar, um reino, jamais desaparecer de todo, enquanto subsistir o nome que os designou (Byblos, Carthago, Suméria), a palavra, sendo o espírito do que ─ ainda que só imaginariamente ─ existe, permanece ainda, por incorruptível, como o esplendor do que foi, podendo, mesmo transmigrada, mesmo esquecida, ser reintegrada em sua original clareza. Distingue, fixa, ordena e recria: ei-la.
LINS, Osman. Nove, novena. 4ª. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1994, p. 98.
Uma mulher mergulhou em mim lá pelo meio da noite. Acordei repleta e ensopada. Ela se atirou sem medo em minhas águas. Confessou: um pouco atrasada. E se imbuiu de mares e se tingiu das cores dos peixes e das algas. E soltou seus cabelos. Exibiu sua nudez, sem pejo e sem vexame. E decretou novo estado de prazer e lucidez.
(Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz www.jperegrino.com.br)
Poema de poeta grego que dialoga com O deserto dos tártaros
À ESPERA DOS BÁRBAROS-Konstantinos Kaváfis
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se assentou em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje. O nosso imperador conta saudar o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe um pergaminho no qual estão escritos muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores usam togas de púrpura, bordadas, e pulseiras com grandes ametistas e anéis com tais brilhantes e esmeraldas? Por que hoje empunham bastões tão preciosos de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje, tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje e aborrecem arengas, eloqüências.
Por que subitamente esta inquietude? (Que seriedade nas fisionomias!) Por que tão rápido as ruas se esvaziam e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm e gente recém-chegada das fronteiras diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós? Ah! eles eram uma solução.